Você recebeu o diagnóstico de lesão do manguito rotador e alguém disse que a única solução é operar. Talvez outro médico, talvez um conhecido, talvez o Google. Mas será que isso é verdade? A ciência mais recente mostra que não.
O que o New England Journal of Medicine recomenda para lesão do manguito rotador
Em novembro de 2024, o New England Journal of Medicine publicou uma revisão clínica sobre lesões degenerativas do manguito rotador. A conclusão principal: a maioria dos pacientes pode ser tratada sem cirurgia.
Os dados são claros. Mais de 80% dos pacientes que fizeram fisioterapia supervisionada tiveram redução da dor e melhora funcional em 6 meses a 1 ano. E quando pesquisadores compararam fisioterapia isolada com cirurgia de reparo do manguito em um estudo randomizado, os resultados foram semelhantes em 1 e 2 anos de acompanhamento.
O artigo ainda destaca outro achado: a descompressão subacromial, procedimento feito junto com muitas cirurgias de ombro, não se mostrou superior à cirurgia simulada (em que o cirurgião apenas entra com a câmera e não faz nada). Por isso, não é mais rotineiramente recomendada.
Por que o tamanho da lesão não define se você precisa operar
Muitos pacientes acreditam que lesão grande significa cirurgia obrigatória. O artigo confronta essa ideia diretamente: não existe correlação forte entre o tamanho ou a espessura da lesão e a intensidade dos sintomas. Pessoas com lesões extensas podem ter pouca dor. Pessoas com lesões pequenas podem estar muito limitadas.
O que determina a indicação cirúrgica não é só a imagem. É o conjunto: idade, nível de atividade, resposta ao tratamento conservador, expectativas do paciente e características da lesão. Cirurgia pode ser considerada quando o tratamento conservador falha, não como primeira opção.
Como decido o tratamento de lesão do manguito rotador no meu consultório
Quando um paciente chega com diagnóstico de lesão degenerativa do manguito rotador, minha primeira pergunta não é “quando vamos operar?”. É “o que você já tentou?”. A fisioterapia bem feita, com foco em fortalecimento do manguito e da musculatura da escápula, é o tratamento inicial para a maioria dos casos.
Se a dor limita muito a participação na fisioterapia, uma infiltração pode ajudar a curto prazo. Se depois de alguns meses não houver melhora, aí sim discutimos cirurgia. Mas essa discussão precisa ser honesta: os resultados da cirurgia e da fisioterapia, em muitos casos, são parecidos.
Cirurgia de manguito rotador não é garantia de tendão perfeito. Mesmo após o reparo, estudos mostram que o tendão pode não cicatrizar completamente, e ainda assim o paciente melhora. Isso mostra que a melhora não depende só da anatomia.
Se você tem dor no ombro e uma lesão no exame, isso não significa que a cirurgia é inevitável.
Quer saber se o seu caso realmente precisa de cirurgia? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Jain NB, Khazzam MS. Degenerative Rotator-Cuff Disorders. New England Journal of Medicine, 2024;391(21):2027-2034. DOI: 10.1056/NEJMcp1909797