Você fez uma ressonância, o laudo veio cheio de termos como “lesão”, “rotura” ou “tendinopatia” do manguito rotador. A primeira reação é pensar: algo está errado comigo. Mas e se essa alteração for comum na sua faixa etária, mesmo em pessoas sem dor nenhuma?
O que a revisão sistemática mostra sobre lesão do manguito rotador e idade
Uma revisão sistemática publicada no Journal of Shoulder and Elbow Surgery em 2014 reuniu dados de 30 estudos, totalizando mais de 6 mil ombros. Os pesquisadores do Massachusetts General Hospital, ligado a Harvard, queriam saber qual a real prevalência de alterações do manguito rotador e se elas aumentam com a idade.
Os números são claros. Aos 20 anos, cerca de 10% das pessoas já têm alguma alteração. Aos 50, sobe para quase 20%. Aos 60, passa de 30%. E acima dos 80 anos, mais de 60% das pessoas têm alterações no manguito rotador.
O dado mais relevante: essa progressão acontece tanto em pessoas com dor quanto em pessoas completamente assintomáticas. Ou seja, ter uma alteração no exame não significa automaticamente que ela é a causa da sua dor.
Por que sua ressonância pode não explicar sua dor no ombro
Muitos pacientes chegam ao consultório convencidos de que a lesão vista na ressonância precisa ser operada. Mas os dados mostram outra realidade: alterações do manguito rotador fazem parte do envelhecimento normal do corpo humano, assim como cabelos brancos ou rugas.
A conclusão dos autores é direta: a prevalência de alterações em pessoas sem sintomas é alta o suficiente para que a degeneração do manguito rotador seja considerada um aspecto comum do envelhecimento normal.
Isso muda completamente a forma de interpretar um exame. A pergunta não é “tenho uma lesão?”, mas sim “essa lesão explica meus sintomas?”.
Como interpreto a ressonância do manguito rotador no meu consultório
Quando um paciente traz uma ressonância com alterações, não olho apenas para o laudo. Olho para a idade, para os sintomas, para a história clínica. Uma lesão parcial em alguém de 55 anos pode ser apenas o envelhecimento natural do tendão, não uma indicação cirúrgica.
Antes de decidir qualquer tratamento, preciso entender se aquela imagem realmente explica o que você sente. Porque tratar uma alteração de imagem que não causa sintoma é tratar o exame, não o paciente.
A ressonância mostra anatomia. Não mostra o que precisa ser tratado.
Quer saber se a alteração no seu exame realmente explica sua dor? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Teunis T, Lubberts B, Reilly BT, Ring D. A systematic review and pooled analysis of the prevalence of rotator cuff disease with increasing age. Journal of Shoulder and Elbow Surgery, 2014;23(12):1913-1921. DOI: 10.1016/j.jse.2014.08.001