Depressão no paciente com lesão do manguito pesa mais que o tamanho da lesão

Você fez uma ressonância, viu uma lesão grande no manguito rotador e pensou: isso explica tudo. Quanto maior a lesão, pior a dor. Faz sentido, não faz? Só que a ciência mostra que essa lógica não funciona.

O que os estudos mostram sobre dor no ombro e tamanho da lesão do manguito rotador

Um estudo publicado no Journal of Shoulder and Elbow Surgery em 2022, da Universidade do Texas, avaliou 71 pacientes com tendinopatia do manguito rotador. Os pesquisadores queriam saber o que realmente explicava a intensidade da dor e a incapacidade funcional desses pacientes.

Mediram tudo: tamanho da lesão, grau de retração do tendão, atrofia muscular, infiltração de gordura no músculo. E também mediram sintomas de ansiedade e depressão.

O resultado foi claro: a incapacidade funcional estava associada a sintomas de depressão, não ao tamanho da lesão. Pacientes com lesões pequenas e sintomas de depressão tinham mais limitações do que pacientes com lesões grandes e saúde mental preservada.

Por que sua ressonância não explica sua dor no ombro

Esse achado desafia uma crença comum: a de que o exame de imagem conta toda a história. Muitos pacientes chegam ao consultório convencidos de que precisam de cirurgia porque a lesão é grande.

Mas o estudo mostra que o tamanho do defeito no tendão, o grau de atrofia e a infiltração gordurosa não determinam o quanto você consegue usar o braço ou o quanto você sente dor. O que determina é outra coisa: como você está lidando com a situação toda.

Isso não quer dizer que a lesão não existe ou que a dor é inventada. Quer dizer que a experiência de dor e incapacidade depende de muito mais do que anatomia. Depende de sono, estresse, medo, expectativas, contexto de vida.

Como avalio pacientes com lesão do manguito rotador no meu consultório

Quando um paciente chega com uma ressonância mostrando lesão do manguito rotador, não olho só para a imagem. Olho para a pessoa. Há quanto tempo a dor existe? Como está o sono? O trabalho? O humor? Existe medo de usar o braço?

Essa avaliação muda completamente a conduta. Um paciente com lesão grande, sem sintomas de depressão e com boa função pode não precisar de cirurgia. Um paciente com lesão pequena, muito limitado e com sinais de sofrimento emocional pode precisar de algo além de fisioterapia ou cirurgia.

Tratar só o tendão sem olhar para o resto é tratar metade do problema.

Quer entender o que realmente está por trás da sua dor no ombro? Agende uma avaliação.

Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.

Referência

Rohrback M, Ramtin S, Abdelaziz A, Matkin L, Ring D, Crijns TJ, Johnson A. Rotator cuff tendinopathy: magnitude of incapability is associated with greater symptoms of depression rather than pathology severity. Journal of Shoulder and Elbow Surgery, 2022;31(10):2134-2139. DOI: 10.1016/j.jse.2022.03.007

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