Você fez uma ressonância do ombro e o laudo veio com lesão labral superior, também chamada de lesão SLAP. Talvez o médico tenha falado em cirurgia artroscópica. A conclusão parece inevitável: se tem lesão, precisa reparar. Mas a ciência mostra que essa lógica não se sustenta em pessoas de meia-idade.
O que os estudos mostram sobre lesão SLAP em pessoas sem dor no ombro
Um estudo publicado no Orthopaedic Journal of Sports Medicine em 2016 avaliou 53 pessoas entre 45 e 60 anos sem nenhuma queixa no ombro. Nenhum participante tinha histórico de lesão, cirurgia ou dor em qualquer um dos ombros. Todos passaram por exame físico completo e foram considerados normais.
Os resultados surpreendem: dois radiologistas especializados interpretaram as ressonâncias e encontraram lesão labral superior em 55% e 72% dos casos. Mais da metade dessas pessoas sem sintomas tinha achados que, em pacientes com dor, poderiam levar à indicação cirúrgica.
Não houve diferença nos achados entre homens e mulheres, entre o braço dominante e o não dominante, nem entre pessoas que faziam trabalho físico pesado e as que não faziam. A lesão aparecia independentemente do perfil do paciente.
Como interpretar sua ressonância de ombro com lesão SLAP após os 45 anos
Você pode ter lido em outros sites que lesão SLAP precisa de reparo artroscópico. Nem sempre. Este estudo mostra que a maioria das pessoas de meia-idade tem esse tipo de achado na ressonância sem sentir absolutamente nada.
Estudos em cadáveres já haviam demonstrado que o labrum do ombro se solta progressivamente do osso com o envelhecimento. É um processo natural, como as rugas na pele. A ressonância detecta essa alteração, mas isso não significa que ela seja a causa de dor ou que precise de cirurgia.
Os autores do estudo alertam: achados de lesão labral superior em ressonância de pessoas entre 45 e 60 anos podem representar simplesmente o envelhecimento normal do tecido.
Como avalio pacientes de meia-idade com dor no ombro e achado de SLAP
Quando um paciente nessa faixa etária chega com ressonância mostrando lesão SLAP, não assumo automaticamente que encontramos a causa do problema. Avalio a história clínica completa, o mecanismo de início da dor, os movimentos que provocam sintomas e a resposta a tratamentos prévios.
Os próprios autores do estudo sugerem cautela ao interpretar a ressonância de ombro em pacientes entre 45 e 60 anos. O risco é encontrar um achado que não explica a queixa e que pode levar a tratamentos desnecessários.
Ressonância mostra anatomia. Não decide tratamento. O contexto clínico é que define a conduta.
Recebeu um diagnóstico de lesão SLAP no ombro e está em dúvida se precisa de cirurgia? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Schwartzberg R, Reuss BL, Burkhart BG, Butterfield M, Wu JY, McLean KW. High prevalence of superior labral tears diagnosed by MRI in middle-aged patients with asymptomatic shoulders. Orthopaedic Journal of Sports Medicine, 2016;4(1):2325967115623212. DOI: 10.1177/2325967115623212