Ressonância do quadril mostra lesão labral: isso significa que preciso de cirurgia?

Você fez uma ressonância do quadril e o laudo veio com lesão no labrum acetabular. O médico falou em impacto femoroacetabular. A conclusão parece inevitável: se tem lesão, precisa operar. Mas a ciência mostra que essa lógica não se sustenta.

O que os estudos mostram sobre ressonância de quadril em atletas sem dor

Um estudo publicado no American Journal of Sports Medicine em 2011 avaliou 39 jogadores de hóquei profissionais e universitários. Todos estavam em atividade plena, jogando normalmente, sem queixas de dor no quadril ou na virilha. Todos foram submetidos a ressonância magnética de alta resolução.

O resultado impressiona: 77% desses atletas sem sintomas tinham achados anormais na ressonância. Lesão do labrum acetabular apareceu em 56% dos jogadores. Alterações na região da virilha e púbis foram encontradas em 36%. Edema ósseo na sínfise púbica estava presente em 23%.

Nenhum desses jogadores perdeu tempo de jogo por causa de dor no quadril ou na virilha durante toda a temporada. Os achados estavam lá, na imagem, mas não causavam problema clínico.

Como interpretar sua ressonância de quadril com lesão labral

Você pode ter lido em outros sites que lesão labral do quadril precisa de artroscopia. Nem sempre. Este estudo mostra que mais da metade de atletas de alto rendimento têm essa alteração e continuam competindo sem limitação.

Os pesquisadores sugerem que essas alterações podem representar o efeito acumulado de microtraumas repetitivos ao longo dos anos de esporte. É uma adaptação do tecido, não necessariamente uma doença que precisa de intervenção.

Quando você recebe um laudo com lesão labral, a pergunta certa não é se a lesão existe. A pergunta é: essa lesão explica meus sintomas? Para responder isso, o exame físico e a história clínica são fundamentais.

Como avalio pacientes com dor no quadril e achados de ressonância no meu consultório

Quando um paciente chega com ressonância mostrando lesão labral, não parto do princípio de que o tratamento é cirúrgico. Avalio a localização exata da dor, quais movimentos provocam o sintoma, há quanto tempo o quadro existe, qual o nível de atividade física e quais tratamentos já foram tentados.

A ressonância é uma ferramenta, não um veredito. Muitas lesões labrais respondem bem a fisioterapia, modificação de atividade e fortalecimento muscular. Cirurgia fica reservada para casos que não melhoram com tratamento conservador bem conduzido.

Lesão na imagem não é o mesmo que indicação cirúrgica. O contexto clínico é que define o tratamento.

Recebeu um diagnóstico de lesão labral no quadril e está em dúvida sobre o tratamento? Agende uma avaliação.

Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.

Referência

Silvis ML, Mosher TJ, Smetana BS, Chinchilli VM, Flemming DJ, Walker EA, Black KP. High prevalence of pelvic and hip magnetic resonance imaging findings in asymptomatic collegiate and professional hockey players. American Journal of Sports Medicine, 2011;39(4):715-721. DOI: 10.1177/0363546510388931

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