Você fez uma ressonância do cotovelo e o laudo veio com achados no tendão extensor. Talvez o médico tenha falado em epicondilite lateral ou cotovelo de tenista. A conclusão parece óbvia: se tem alteração na imagem, é isso que causa a dor. Mas a ciência mostra que essa lógica não se sustenta.
O que os estudos mostram sobre ressonância e cotovelo de tenista
Um estudo publicado na revista Shoulder & Elbow em 2024 avaliou 30 voluntários sem nenhuma dor no cotovelo. Todos fizeram ressonância magnética de alta definição em ambos os cotovelos. O resultado surpreende: 37% dessas pessoas sem sintomas tinham alterações no tendão extensor comum, exatamente as mesmas alterações que aparecem em quem tem dor.
A prevalência aumentava com a idade. Entre 35 e 44 anos, 10% tinham achados. Entre 55 e 65 anos, esse número subia para 67%. Ou seja: duas em cada três pessoas nessa faixa etária têm alterações na ressonância sem sentir absolutamente nada.
Os pesquisadores concluíram que esses achados fazem parte do envelhecimento natural do tendão. Algo semelhante ao que já sabemos sobre o manguito rotador no ombro, onde lesões assintomáticas são extremamente comuns após os 60 anos.
Como interpretar sua ressonância de cotovelo
Se você recebeu um laudo com alterações no tendão extensor e está com dor, é natural achar que uma coisa explica a outra. Mas este estudo mostra que a relação não é automática. Pessoas com alterações iguais às suas podem não ter nenhum sintoma.
Você pode ter lido em outros sites que a ressonância confirma o diagnóstico de cotovelo de tenista. Nem sempre. A ressonância mostra anatomia. Ela não diz se aquela alteração é a causa da sua dor ou apenas uma característica do seu tendão que está ali há anos, sem incomodar.
Antes de decidir qualquer tratamento, a pergunta certa é: esse achado explica meus sintomas ou é apenas uma alteração comum para minha idade?
Como avalio pacientes com dor no cotovelo no meu consultório
Quando um paciente chega com ressonância mostrando alteração no tendão extensor, não assumo automaticamente que encontramos a causa. Avalio onde exatamente dói, quais movimentos provocam o sintoma, há quanto tempo o quadro existe, como está o sono, o trabalho, o contexto geral.
O diagnóstico de epicondilite lateral continua sendo clínico, baseado em história e exame físico. A ressonância pode ajudar em casos específicos, mas não substitui a avaliação.
Ressonância mostra o que você tem. Não mostra o que você sente.
Quer entender o que sua ressonância de cotovelo realmente significa para o seu caso? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Paluch AJ, Burden EG, Batten TJ, Knight B, Anaspure R, Aboelmagd S, Evans JP, Smith CD. Defining tennis elbow characteristics: the assessment of magnetic resonance imaging defined tendon pathology in an asymptomatic population. Shoulder & Elbow, 2024;16(2):206-213. DOI: 10.1177/17585732221146731