Você está com dor no ombro, não consegue achar uma posição confortável para dormir e acorda pior do que deitou. Depois de algumas noites assim, parece que tudo dói mais, que o humor está pior e que a fisioterapia não está funcionando. Não é impressão sua. A ciência ajuda a explicar.
O que os estudos mostram sobre sono ruim e o cérebro
Uma revisão publicada na Nature Reviews Neuroscience em 2017, por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, reuniu estudos de neuroimagem sobre o que acontece no cérebro quando dormimos mal.
Um dos estudos citados mostrou que, depois de uma noite sem dormir, a amígdala, a região do cérebro que processa ameaças e emoções negativas, reagiu cerca de 60% mais a imagens negativas. Ao mesmo tempo, a comunicação entre a amígdala e o córtex pré-frontal, a área que ajuda a colocar as coisas em perspectiva, ficou mais fraca. Na prática, o cérebro passa a reagir de forma exagerada a estímulos que normalmente não incomodariam tanto.
A privação de sono também prejudica a atenção, a memória de trabalho e o aprendizado. O cérebro sem sono perde parte da capacidade de diferenciar o que é grave do que não é.
Um cuidado na leitura: a revisão trata de emoção e cognição, não mediu dor diretamente. A ligação com a dor é uma extrapolação, mas coerente com o que se sabe sobre como o cérebro processa a dor.
Por que sua dor no ombro pode piorar quando você dorme mal
Você pode ter ouvido que dor é só questão de lesão. Se a ressonância mostra um tendão alterado, a dor vem de lá. Não é assim que funciona.
A dor é uma experiência produzida pelo cérebro. Quando o cérebro está privado de sono e mais reativo a ameaças, sinais que seriam toleráveis podem ser sentidos com mais intensidade, sem que nada tenha mudado no seu ombro.
Isso não significa que a dor é inventada. Significa que o sistema nervoso está mais reativo. E, quando isso acontece, o tratamento fica mais difícil: a fisioterapia incomoda mais, a motivação cai e a recuperação desacelera.
Como considero o sono no tratamento dos meus pacientes
Quando um paciente me diz que a dor piorou sem motivo aparente, uma das primeiras perguntas que faço é sobre o sono. Quantas horas está dormindo? Acorda durante a noite? Tem dor em repouso que impede de adormecer?
Tratar dor sem perguntar sobre sono é como tentar encher um balde furado. O melhor programa de reabilitação rende menos se o paciente está dormindo 4 horas por noite.
Está com dor que não melhora e dorme mal há semanas? Pode ser hora de avaliar o quadro completo. Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Krause AJ, Simon EB, Mander BA, Greer SM, Saletin JM, Goldstein-Piekarski AN, et al. The sleep-deprived human brain. Nature Reviews Neuroscience. 2017;18(7):404-418. DOI: 10.1038/nrn.2017.55