Lesão do manguito rotador precisa de cirurgia? O que a maior revisão científica mostrou

Você descobriu uma lesão no manguito rotador e alguém já disse que a solução é cirurgia. A dúvida que fica é: será que eu realmente preciso operar? A resposta da ciência pode surpreender.

O que a maior revisão de estudos mostrou sobre cirurgia do manguito rotador

A Cochrane, uma das instituições mais respeitadas do mundo em análise de evidências médicas, publicou em 2019 uma revisão que reuniu 9 ensaios com 1.007 pacientes com lesão completa do manguito rotador. A comparação principal foi entre operar e fazer tratamento sem cirurgia (exercícios, com ou sem infiltração de corticoide).

Depois de um ano, a dor de quem operou foi, em média, menos de 1 ponto melhor numa escala de 0 a 10. A função do ombro foi 6 pontos melhor numa escala de 0 a 100. A qualidade de vida ficou praticamente igual. E a percepção de sucesso do tratamento foi de cerca de 87% entre quem não operou e 94% entre quem operou.

Segundo os autores, a cirurgia pode trazer pouco ou nenhum benefício clinicamente importante em dor, função, qualidade de vida e percepção de sucesso, quando comparada ao tratamento sem cirurgia. A certeza dessa evidência vai de baixa a moderada, e nenhum dos estudos comparou com cirurgia simulada.

Quando a cirurgia do manguito rotador pode ou não ser necessária

Você pode ter lido que toda lesão do manguito rotador precisa de reparo cirúrgico. Não precisa.

Essa revisão incluiu principalmente pessoas com lesões pequenas e degenerativas (as que aparecem com o envelhecimento) do tendão supraespinal, com idade média entre 56 e 68 anos. É para esse perfil que os resultados são mais claros: exercícios bem orientados podem dar resultado parecido com o da cirurgia.

Isso não significa que ninguém precisa operar. Lesões traumáticas (causadas por queda ou acidente), lesões grandes envolvendo o subescapular e pessoas jovens podem ter indicação cirúrgica. A revisão deixa claro que suas conclusões podem não valer para esses casos.

O que muda é a forma de pensar. Em vez de tenho lesão, preciso operar, a pergunta certa é: meu caso justifica os riscos e o tempo de recuperação de uma cirurgia, considerando que o tratamento sem cirurgia pode funcionar de forma parecida?

Como decido o tratamento de lesão do manguito rotador no meu consultório

Quando um paciente chega com ressonância mostrando lesão do manguito, a primeira coisa que faço é contextualizar. Lesão na imagem não é automaticamente indicação cirúrgica. Avalio a história, o tipo de lesão, a idade, o nível de atividade, a dor em repouso, a força do ombro e o quanto aquela lesão pesa na vida daquela pessoa.

Para muitos pacientes com lesões pequenas e degenerativas, o caminho começa com reabilitação bem feita. Não é qualquer exercício genérico. É um programa supervisionado e individualizado.

Cirurgia existe para os casos que realmente precisam. Se você já tem indicação de cirurgia e quer entender as opções antes de decidir, uma segunda opinião ajuda.

Quer saber se a sua lesão do manguito rotador precisa de cirurgia ou se o tratamento sem cirurgia é o melhor caminho para o seu caso? Agende uma avaliação.

Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.

Referência

Karjalainen TV, Jain NB, Heikkinen J, Johnston RV, Page CM, Buchbinder R. Surgery for rotator cuff tears. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2019;12(12):CD013502. DOI: 10.1002/14651858.CD013502

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