Você já fez muitos exames e nada parece justificar a sua dor. A ressonância veio normal ou com achados que não explicam tudo o que você sente. A essa altura, talvez já tenha ouvido que é psicológico ou que não tem nada. Nenhuma das duas coisas é verdade.
O que os estudos mostram sobre dor crônica e sensibilização do sistema nervoso
Um artigo publicado na revista Manual Therapy em 2011, por pesquisadores da Vrije Universiteit Brussel e de outras universidades europeias, propôs diretrizes práticas para explicar aos pacientes um conceito chamado sensibilização central. Em termos simples, é quando o sistema nervoso fica mais sensível do que deveria. Sinais que normalmente não causariam dor passam a ser amplificados. Uma pressão leve, um movimento simples do braço, tudo chega ao cérebro como se fosse uma ameaça.
Segundo os autores, a sensibilização central explica muitos casos de dor musculoesquelética crônica sem explicação aparente, como em parte das pessoas com dor lombar crônica, dor cervical depois de chicotada, fibromialgia e síndrome da fadiga crônica. O resultado é sentir mais dor do que o estado do tecido justificaria.
Os autores citam estudos mostrando que sessões presenciais de educação sobre a fisiologia da dor, junto com material escrito, mudam as crenças sobre a dor e melhoram o estado de saúde desses pacientes.
Por que entender a sensibilização central muda o tratamento da dor crônica
Talvez você já tenha ouvido que dor crônica sem achado no exame é da cabeça ou que o paciente está exagerando. Não é isso que a ciência mostra. A dor é real. O que acontece é que, nesses casos, o problema principal deixa de estar só no tecido e passa a estar no processamento do sistema nervoso.
Quando o paciente entende isso, muda a forma como ele lida com a dor. Em vez de ficar procurando a lesão que ninguém encontra, ele começa a trabalhar com o que pode estar mantendo o problema: o sono ruim, o estresse, a inatividade, o medo de se movimentar.
As diretrizes também dizem como fazer: uma primeira sessão presencial explicando a fisiologia da dor e a diferença entre dor aguda e dor crônica, material escrito para ler em casa e uma segunda sessão para corrigir mal-entendidos e levar o conhecimento para o dia a dia. A educação continua durante todo o tratamento ativo.
Como abordo a dor crônica no ombro quando não há lesão que explique tudo
Quando um paciente chega com dor crônica no ombro e a ressonância não explica a intensidade do que ele sente, não ignoro a queixa. Investigo há quanto tempo a dor existe, se há dor em repouso, como está o sono, se há dor espalhada para outras regiões e como o paciente interpreta o que está acontecendo. Se o quadro aponta para sensibilização central, o primeiro passo é explicar o que está acontecendo. Nenhum tratamento funciona bem se o paciente não entende o porquê.
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Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Nijs J, van Wilgen CP, Van Oosterwijck J, van Ittersum M, Meeus M. How to explain central sensitization to patients with unexplained chronic musculoskeletal pain: practice guidelines. Manual Therapy. 2011;16(5):413-418. DOI: 10.1016/j.math.2011.04.005