Você saiu do consultório com um diagnóstico no ombro. Talvez tenha ouvido lesão do manguito rotador ou síndrome do impacto subacromial. Só de ouvir o nome, já ficou preocupado. Pensou em cirurgia. Pensou que era grave. Mas e se o nome do diagnóstico estiver pesando mais na sua cabeça do que a própria condição?
O que um estudo com 1.308 pessoas revelou sobre diagnósticos de ombro
Um estudo publicado no BMJ Open em 2021, conduzido por pesquisadores da Universidade de Sydney, testou o efeito do nome do diagnóstico sobre as pessoas.
Os pesquisadores apresentaram a mesma história clínica de dor no ombro para 1.308 pessoas, com e sem dor no ombro. A condição descrita era idêntica. A única diferença era o nome que cada grupo recebia. Seis nomes foram testados, entre eles síndrome do impacto subacromial, lesão do manguito rotador e bursite.
Quem recebeu o rótulo síndrome do impacto subacromial expressou com mais frequência angústia (21%), incerteza (22%) e a sensação de que a condição era grave (15%). Quem ouviu lesão do manguito rotador foi o grupo que mais mencionou cirurgia: 19%. Entre os que receberam o nome bursite, só 5% falaram em cirurgia.
A mesma condição. Nomes diferentes. Reações diferentes.
Por que o nome do diagnóstico de ombro muda o que você sente
Talvez você tenha ouvido ou lido que tem uma lesão do manguito rotador e imediatamente pensado: preciso operar. Esse estudo mostra que essa reação não vem necessariamente da gravidade do problema. Vem do peso que o nome carrega.
Quando alguém ouve lesão ou ruptura, entende dano, algo rompido, algo que precisa ser consertado. Quando ouve bursite ou episódio de dor no ombro, entende algo mais comum, mais tratável, menos ameaçador. A condição era a mesma. O que mudou foi a percepção.
Isso não quer dizer que o nome do diagnóstico não importa. Quer dizer que ele não deveria ser o fator que define se você acha que precisa de cirurgia.
Síndrome do impacto subacromial, por exemplo, soa como se algo estivesse sendo esmagado dentro do ombro. Muitos pesquisadores hoje defendem trocar esse termo, porque ele não descreve bem o que acontece.
Como explico o diagnóstico de ombro no meu consultório
Quando dou um diagnóstico, penso no efeito que aquele nome vai ter na cabeça do paciente. Se o nome gera medo desproporcional, o paciente toma decisões baseadas em medo, não em evidência. Explico o que o nome significa, o que a ressonância mostra e o que aquilo representa para aquele caso específico. Nem toda alteração no exame precisa de cirurgia. Muitas vezes, o que o paciente precisa é de contexto.
O nome do seu diagnóstico deveria informar, não assustar.
Quer entender o que o seu diagnóstico de ombro significa e se o tratamento indicado faz sentido para o seu caso? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Zadro JR, Michaleff ZA, O’Keeffe M, Ferreira GE, Haas R, Harris IA, et al. How do people perceive different labels for rotator cuff disease? A content analysis of data collected in a randomised controlled experiment. BMJ Open. 2021;11(12):e052092. DOI: 10.1136/bmjopen-2021-052092