Você tem dor nas costas há meses, já fez exames, já ouviu que tem hérnia, desgaste, ou que a coluna está fora do lugar. E quanto mais ouve essas coisas, mais medo sente de se mexer. Mas e se uma parte do problema não estivesse na coluna, e sim na forma como você entende a sua dor?
O que os estudos mostram sobre educação em dor e dor lombar crônica
Um ensaio clínico randomizado publicado no Clinical Journal of Pain em 2004, conduzido por Lorimer Moseley e colegas, comparou dois tipos de educação para pacientes com dor lombar crônica. Um grupo recebeu sessões individuais sobre como o sistema nervoso produz a dor. O outro recebeu a educação tradicional sobre anatomia e funcionamento da coluna. As sessões foram dadas por fisioterapeutas treinados.
Quem aprendeu como a dor funciona no sistema nervoso teve redução nos pensamentos catastróficos (aquele ciclo de minha coluna está destruída, nunca vou melhorar), mudou crenças sobre a dor e conseguiu se mover mais: a flexão do tronco e a elevação da perna esticada melhoraram.
Quem recebeu a educação tradicional sobre anatomia e postura não melhorou, e os autores sugerem que esse tipo de explicação pode até ter efeito negativo. Eles concluem que a educação sobre a neurofisiologia da dor, e não a do tipo escola de coluna, deve fazer parte de um tratamento mais amplo.
Por que entender a dor muda a forma como você sente dor lombar
O estudo mostrou algo que parece contraintuitivo: só mudar o que o paciente entende sobre a dor já mudou como ele se movimenta. A diferença entre os grupos foi o tipo de informação que receberam.
Quando você entende que dor crônica não significa que a coluna está se destruindo, e que o sistema nervoso pode ficar mais sensível com o tempo, como um alarme desregulado que dispara sem motivo real, a resposta do corpo muda. Você se mexe com menos medo. E isso, por si só, já ajuda.
O estudo também foi honesto: entender a dor não foi suficiente, sozinho, para reduzir de forma relevante a incapacidade que os pacientes relatavam. A diferença foi pequena e provavelmente sem importância clínica. Ou seja, saber como a dor funciona ajuda, mas precisa ser combinado com estratégias ativas, como exercício gradual.
Como abordo a dor lombar crônica no meu consultório
Quando um paciente chega com dor lombar crônica, uma das primeiras coisas que faço é explicar o que a ciência sabe sobre como a dor funciona. Não para minimizar o que ele sente, porque a dor é real. Mas para tirar o peso de diagnósticos assustadores que muitas vezes não explicam a dor.
Ensinar o paciente sobre dor não substitui tratamento. Mas muda o ponto de partida. Um paciente que entende a própria dor participa melhor do tratamento, tem menos medo de se mexer e toma decisões mais informadas sobre o próprio corpo.
Tem dor lombar crônica e quer entender o que está acontecendo antes de decidir qualquer tratamento? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Moseley GL, Nicholas MK, Hodges PW. A randomized controlled trial of intensive neurophysiology education in chronic low back pain. Clinical Journal of Pain. 2004;20(5):324-330. DOI: 10.1097/00002508-200409000-00007