Cirurgias ortopédicas desnecessárias: o que a ciência diz sobre tratamentos que você talvez não precise

Você recebeu um diagnóstico, fez exames e alguém disse que a solução é cirurgia. Parece o caminho natural. Mas será que essa cirurgia tem evidência de que funciona melhor do que não operar? Em muitos casos na ortopedia, a resposta é não.

O que os estudos mostram sobre cirurgias ortopédicas sem evidência suficiente

Uma revisão publicada no ANZ Journal of Surgery em 2024 discutiu o excesso de tratamento na ortopedia, definido como o cuidado em que o potencial de dano supera o de benefício. Os autores reuniram dados já publicados: entre dez das cirurgias ortopédicas eletivas mais comuns, só duas tinham evidência de superioridade sobre o tratamento sem cirurgia. E, num levantamento australiano, só cerca de 20% do volume de cirurgias ortopédicas tinha pelo menos um ensaio de baixo risco de viés mostrando vantagem da cirurgia. E 16% tinham ensaios mostrando que a cirurgia não era melhor do que o tratamento sem cirurgia.

Você pode ter ouvido que, se existe uma cirurgia para o seu problema, é porque ela funciona. Não necessariamente. Diferentemente dos medicamentos, que passam por testes rigorosos antes de serem aprovados, procedimentos cirúrgicos podem entrar na prática sem o mesmo nível de comprovação. Muitas cirurgias se tornaram comuns com base em observação, sem nunca terem sido comparadas de forma adequada com alternativas sem cirurgia.

Por que tantas cirurgias ortopédicas são feitas sem necessidade

O artigo aponta vários fatores. Um deles é a variação geográfica. Num estudo citado, o número de cirurgias de coluna por habitante era mais de cinco vezes maior nos Estados Unidos do que na Inglaterra e na Escócia. Dentro dos Estados Unidos, a taxa de artrodese lombar variava mais de 20 vezes entre regiões. Essa diferença não se explica pelas características da população local. Os autores apontam também a falta de evidência, a distância entre o que a evidência mostra e o que se faz na prática e incentivos financeiros do sistema de saúde.

Existe também um viés comum de raciocínio: quando o paciente melhora depois da cirurgia, a tendência é concluir que a melhora veio da operação. Mas muitas condições ortopédicas melhoram com o tempo, pela evolução natural, pela fisioterapia ou porque a dor tende a diminuir. Atribuir a melhora à cirurgia sem comparar com quem não operou é um erro de raciocínio conhecido: depois disso, logo por causa disso.

Como decido se a cirurgia é necessária no meu consultório

Quando um paciente chega com uma indicação cirúrgica, a primeira pergunta que faço é: existe evidência de qualidade mostrando que essa cirurgia é melhor do que o tratamento sem operação? Não basta existir o procedimento. A pergunta é se os estudos sustentam aquela indicação para aquele paciente.

A artroscopia de joelho para artrose e a descompressão subacromial para dor no ombro são exemplos de cirurgias que foram muito realizadas e que, quando testadas em estudos bem desenhados, não se mostraram superiores ao tratamento sem cirurgia. Em algumas regiões, a artroscopia de joelho caiu até 90% depois dessas evidências; em outras, quase nada mudou.

O paciente merece saber quando a evidência apoia a cirurgia e quando não apoia. Cirurgia sem evidência não é cuidado. É excesso.

Quer saber se a cirurgia indicada para o seu caso tem respaldo na melhor evidência disponível? Agende uma avaliação.

Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.

Referência

Boyle AB, Harris IA. Unnecessary care in orthopaedic surgery. ANZ Journal of Surgery. 2024;94(11):1919-1924. DOI: 10.1111/ans.19171

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