Você sente dor há meses, fez exames, viu alterações e ouviu que a solução é cirurgia. Parece lógico: se tem algo errado na imagem, operar resolve. Só que, quando a ciência testa essa lógica com rigor, o resultado surpreende.
O que os estudos mostram sobre cirurgia para dor crônica no ombro, joelho e coluna
Uma revisão publicada na revista PAIN em 2020 analisou 14 cirurgias ortopédicas comuns para dor crônica, entre elas o reparo do manguito rotador, a artroscopia de joelho, a descompressão subacromial, a artrodese de coluna e a prótese de joelho.
Os pesquisadores procuraram ensaios clínicos randomizados que comparassem fazer a cirurgia com não fazer. Ou seja: operar traz benefício quando comparado com não operar?
De mais de 6.700 estudos publicados sobre esses procedimentos, só 64 faziam essa comparação, menos de 1%. Desses 64, apenas 9 (14%) foram favoráveis à cirurgia.
Tem mais. Só 12 desses estudos usaram um método em que o paciente não sabia se tinha sido operado de verdade ou não, a maioria deles sobre descompressão subacromial. Nenhum dos 12 mostrou que a cirurgia era melhor do que não fazer o procedimento.
Você pode ter lido que, se a ressonância mostra lesão, a cirurgia é o caminho natural. Esse estudo mostra que essa lógica não se sustenta na maioria dos casos.
Quando a cirurgia para dor crônica é realmente necessária
Isso não significa que cirurgia nunca funciona. Significa que, para muitas condições de dor crônica, como artrose de joelho, dor no ombro e dor lombar, a decisão de operar deveria se basear em evidência forte, não apenas na imagem do exame.
A prótese total de joelho para artrose foi o único procedimento em que o estudo comparativo disponível, um só, favoreceu a cirurgia. Para os outros, a maioria dos ensaios não mostrou vantagem sobre não operar. A artroscopia de joelho para artrose e menisco degenerativo, por exemplo, foi testada várias vezes.
Os autores lembram que a dor crônica tem causas complexas, muito influenciadas por fatores psicossociais, e que tratar só a alteração vista na imagem simplifica demais o problema. Sono, estresse, sensibilidade do sistema nervoso e contexto de vida também pesam.
Como decido sobre cirurgia para dor crônica no meu consultório
Quando um paciente chega com dor crônica e exames mostrando alterações, minha primeira pergunta não é quando vamos operar. É o que já foi tentado e como você está vivendo com essa dor.
Cirurgia tem papel claro em situações específicas. Mas, para dor crônica, a decisão precisa ser baseada em evidência, não em hábito. Se os estudos bem feitos não mostram superioridade da cirurgia para a sua condição, você merece saber disso antes de decidir.
Cirurgia é ferramenta, não primeira opção. E só faz sentido quando a evidência apoia e o caso exige.
Quer saber se o seu caso precisa de cirurgia ou se existem alternativas com evidência? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Harris IA, Sidhu V, Mittal R, Adie S. Surgery for chronic musculoskeletal pain: the question of evidence. Pain. 2020;161(Suppl 1):S95-S103. DOI: 10.1097/j.pain.0000000000001881