Você travou a coluna, a dor é forte e o primeiro impulso é pedir uma ressonância. Parece lógico: quanto antes descobrir o que está acontecendo, melhor. Só que, em muitos casos, fazer ressonância cedo demais não ajuda, e pode piorar o resultado.
O que os estudos mostram sobre ressonância precoce na dor lombar aguda
Um estudo publicado na revista Spine em 2013, conduzido por pesquisadores do Liberty Mutual Research Institute e da Universidade de Massachusetts, analisou 555 trabalhadores afastados do trabalho por dor lombar aguda. Os pesquisadores excluíram os casos em que a ressonância precoce poderia ter indicação e compararam quem fez ressonância nos primeiros 30 dias com quem não fez.
Quem fez ressonância precoce saiu do afastamento num ritmo cerca de 70% menor do que quem não fez o exame. Os custos médicos foram, em média, cerca de 13 mil dólares mais altos por paciente. Mesmo entre quem ficou pouco tempo afastado, até 30 dias depois do exame, os custos foram cerca de 8 mil dólares maiores, sem sinal de resultado melhor.
E esses resultados foram parecidos tanto para quem tinha dor lombar comum quanto para quem tinha dor irradiada para a perna (radiculopatia, a dor que desce seguindo o trajeto de um nervo).
É um estudo observacional, que não sorteou quem faria o exame. Mesmo com os ajustes estatísticos, pode haver diferenças entre os grupos que o estudo não captou.
Por que a ressonância precoce pode piorar sua dor lombar
Você pode ter lido que a ressonância é o exame mais completo para a coluna. De fato, ela mostra muita coisa. O problema é que ela mostra coisas demais. Hérnia de disco ou estreitamento do canal aparecem em 20% a 57% das pessoas sem dor nenhuma, segundo estudos citados pelos autores. São achados frequentes do envelhecimento, não necessariamente a causa do seu problema.
Quando o paciente vê esses achados no laudo, o medo aumenta. E a tendência a intervir também. Os autores falam em efeito iatrogênico, ou seja, dano causado pelo próprio cuidado: mais exames, mais encaminhamentos, mais procedimentos, sem melhora do resultado.
As diretrizes citadas no estudo indicam que, fora de sinais de alerta graves, a ressonância serve para avaliar dor irradiada persistente depois de cerca de um mês de tratamento sem cirurgia, em quem é candidato a cirurgia ou a infiltração.
Como conduzo a investigação de dor lombar aguda no meu consultório
Quando um paciente chega com dor lombar aguda, a primeira coisa que faço é avaliar se existem sinais de alerta que justifiquem um exame imediato. Na grande maioria dos casos, não existem. Aí, a conduta é explicar o que está acontecendo, orientar o manejo da dor, estimular a manutenção de atividade dentro do tolerável e reavaliar ao longo das semanas. Se depois de um mês a dor não melhorou e há sinais de comprometimento de nervo, a ressonância entra, com uma pergunta clara a responder.
Pedir ressonância cedo demais pode parecer cuidado. Mas, quando não há indicação, o exame pode criar um problema que a coluna não tinha.
Quer saber se o seu caso de dor lombar precisa de ressonância agora? Agende uma avaliação.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Webster BS, Bauer AZ, Choi Y, Cifuentes M, Pransky GS. Iatrogenic consequences of early magnetic resonance imaging in acute, work-related, disabling low back pain. Spine. 2013;38(22):1939-1946. DOI: 10.1097/BRS.0b013e3182a42eb6