Você sente dor ao fazer um movimento e, aos poucos, começa a evitar esse movimento. Depois evita movimentos parecidos. Depois evita qualquer coisa que lembre aquela dor. Parece proteção, mas pode ser o início de um ciclo que limita mais do que a lesão em si.
O que os estudos mostram sobre medo de dor e incapacidade
Uma revisão publicada na Behaviour Research and Therapy em 2020 reuniu o que se aprendeu em mais de 100 anos de pesquisa sobre condicionamento do medo e como isso se aplica à dor crônica.
O mecanismo funciona assim. Você sentiu uma dor forte ao fazer um movimento. Seu cérebro registrou aquele movimento como perigoso. A partir daí, só de pensar em repetir o gesto, o corpo já reage: tensão muscular, apreensão, vontade de evitar. Isso se chama medo de movimento, e é uma resposta aprendida, não um defeito seu.
O problema é que esse medo se espalha. A revisão mostra que pessoas com dor crônica têm mais dificuldade em aprender o que é seguro e tendem a generalizar o medo para movimentos parecidos, mesmo que nunca tenham causado dor. É um padrão também visto nos transtornos de ansiedade.
Por que evitar o movimento pode piorar a dor crônica
Evitar um movimento logo depois de uma lesão aguda faz sentido. Dá tempo para o corpo cicatrizar. O problema começa quando a dor persiste além do tempo de cicatrização e a pessoa continua evitando. A evitação impede que o cérebro atualize a informação. Sem testar o movimento de novo, você nunca descobre que ele pode ser seguro agora.
É como se o alarme de incêndio continuasse tocando depois que o fogo já foi apagado. Você não precisa de mais água. Precisa desligar o alarme.
Muitos pacientes chegam ao consultório evitando uma lista enorme de atividades por causa de um exame de imagem com alterações. A revisão lembra que, em pessoas com dor crônica, o medo relacionado à dor prevê a incapacidade além do que a própria intensidade da dor explica.
A boa notícia é que, se o medo foi aprendido, ele pode ser desaprendido. A revisão descreve protocolos de exposição gradual, em que o paciente volta a fazer os movimentos temidos de forma controlada, desenvolvidos para reduzir o medo e melhorar o funcionamento no dia a dia em vários tipos de dor crônica.
Como abordo o medo de movimento nos meus pacientes
Quando percebo que o paciente está evitando movimentos por medo, não ignoro isso nem simplesmente peço para ele relaxar. Investigo há quanto tempo a evitação existe, o que ele acredita que vai acontecer se fizer o movimento e como essa crença se formou. Muitas vezes, a origem é uma frase que ouviu, uma imagem de ressonância mal entendida ou uma experiência isolada de dor que ficou gravada.
O tratamento não é forçar o movimento. É mostrar, com segurança e com ciência, que o movimento temido não causa o dano que o cérebro prevê. Isso muda a resposta do sistema nervoso.
Evitar por medo não protege. Aprisiona.
Sente que o medo de se mover está limitando mais do que a própria dor? Agende uma avaliação para entendermos juntos o que está por trás da sua dificuldade.
Dr. Mauro Choi, médico ortopedista, especialista em cirurgia de ombro e cotovelo. CRM 146874/SP, RQE 51757.
Referência
Meulders A. Fear in the context of pain: lessons learned from 100 years of fear conditioning research. Behaviour Research and Therapy. 2020;131:103635. DOI: 10.1016/j.brat.2020.103635